• Walk and Talk

PODEM LEVAR O QUE QUISEREM


Vivendo e aprendendo…


Esses dias estávamos entrevistando dois irmãos artistas venezuelanos que depois de rodar o mundo, cada qual à sua maneira, se radicaram em Miami nos Estados Unidos, montando seus espaços lado a lado. Mais para frente vamos fazer uma matéria especial sobre a experiência que tivemos com Alberto e Gustavo, duas figuras que nos ensinaram muito através de sua filosofia e seu olhar peculiar em relação a vida. Apesar de partilharem do mesmo DNA e da arte como forma de expressão, os irmãos são opostos como água e vinho e podemos dizer que depois de alguns encontros com eles nosso modo de ver a vida começou mesmo a mudar.


Tenho algo que quero muito compartilhar aqui, uma chave interessante dada por Alberto, conhecido como “Big Buda” – apelido dado não só pela sua crença no budismo como por sua semelhança física. Alberto vive e trabalha no mesmo espaço, um ateliê que mais parece um museu tamanha quantidade de objetos que reuniu durante suas peregrinações. Entrar no espaço de Alberto é como ingressar no próprio mundo, fomos nos identificando com objetos e peças de lugares variados por onde passamos. Da Ásia passando pela África, América do Norte e Central, pedaços do mundo estão ali, contando história através das inúmeras culturas.



Como já é bastante conhecido, Alberto acaba ganhando muitas raridades de amigos que o visitam e deixam sempre um “regalo” para marcar sua amizade e admiração. Ao lado de fora da casa montou um aprazível espaço externo onde pinta seus quadros, recebe clientes e amigos e brinda, com vinho que adora, a vida em si e o prazer de estar vivo. Nesse espaço, assim como dentro da casa-ateliê, existe um pouco de tudo, seus objetos transbordam porta afora formando esse espaço externo criativo.


Em uma de nossas conversas perguntei ao Big Buda como ele fazia para recolher todas as coisas que estavam para fora de casa, tarefa que daria um enorme trabalho diário para montar e desmontar. Recebi um resposta maravilhosa que me caiu como uma luva…


“Deixo tudo sempre aqui como está. Desse mesmo modo que está vendo… não tenho medo que me tomem nada. Podem levar o que quiserem, tirar o que quiserem de mim, não me importo! Acredito que o que é meu e faz parte da minha vida acaba voltando pra mim. Tudo que está vendo está carregado com a minha afetividade, coma a minha energia e sendo assim não fará bem àquele que estiver tirando algo daqui. Sabe que uma vez – seguiu contando – alguém pegou alguns objetos desse espaço, um tempo depois foram devolvidos na calada da noite com um bilhete de desculpas. A pessoa disse não ter se sentido bem com os objetos em sua casa”… e riu deliciosamente.



Alberto tem uma visão extremamente espiritualizada da vida, viveu muito tempo na Índia e no Nepal, rodou toda aquela região e bebeu na fonte direta do budismo; caminho de vida que acredita acima de tudo na Lei do Retorno – princípio que norteia todo o ensinamento. Em suas entrelinhas Big Buda estava falando exatamente sobre essa sua confiança na verdade e na justiça. Uma premissa que pessoalmente acho que faz cada vez mais sentido e que reza sobre a ética tão esquecida nos dias de hoje.


Depois da nossa conversa andei pensando muito em como agimos quando nos tiram algo de valor material, pessoal, etc… É engraçado como cada vez tenho mais certeza que aquilo que nos foi tirado acaba não “cabendo” em outras vidas. Não sei se por energia, se por mera coincidência ou por justiça divina, mas aquilo que é tomado sem aviso prévio nunca se encaixa em outros “lares”.


Se as coisas não regressam da mesma maneira, acabam vindo outras coisas para preencher as gavetas que foram deixadas vazias. Acho que o melhor é mesmo pensar como o Big Buda: ”Podem levar, levem tudo que quiserem. Um dia o vento trás de volta, se não a mesma coisa, traz algo ainda melhor”. E quem é que hoje em dia nunca teve algo tirado sem aviso?!


Independente de como isso foi sentido no momento, acho que o que vale mesmo é ter fé na vida e nessa lei tão forte e divina que nunca deixa as “boas” gavetas vazias. E que venham os novos dias…


Por Luah Galvão

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