• Walk and Talk

GOD SAVE THE QUEEN!


Big Ben em Londres


Inglaterra, país que foi palco de uma quantidade de história tão grande que um ser humano é incapaz de ler mesmo que o faça por todos os dias de sua existência. Terra de uma tal de Rainha Elizabeth cujo respeito e admiração dos súditos verdadeiramente beiram um conto de fadas. Nessa terra curiosa e atraente nossa história é apenas mais uma que se soma, talvez não tão relevante, mas para nós extremamente marcante.


Londres, julho de 2011 desembarcamos no Heathrow International Airport, quase uma cidade, um exemplo de como o universo da aviação pode ser sofisticado, atingindo um ápice de organização e beleza. Nós humildes viajantes do Walk and Talk chegamos com sorrisos largos, reflexo do que nossos olhos viam.


Além do Big Ben, dos antigos metrôs, daqueles ônibus vermelhos de dois andares que vemos nos filmes, taxis pretos e cabines telefônicas; coisas que turistas se encantam. Nós sentimos o respeito que os ingleses tem e praticam com os demais. É algo que vem de berço, é bonito de se ver, torna as coisas do dia a dia mais práticas, mais funcionais e isso acontece naturalmente. Lá concluimos que educação e repeito nunca são demais.


Fomos recebidos por uma amiga brasileira e sua família, adotados, se é que isso é apropriado para adultos. No final de semana seguinte teríamos que sair pois os pais do marido dela viriam para ficar um pouco com as crianças e com eles. Para nós seria perfeito pois queríamos conhececer Bath Spa, uma cidadezinha ao estilo “Harry Potter”, na verdade é um dos pontos turísticos mais visitados do país pois além da beleza da cidade ainda conta com banhos romanos de águas termais, mais um legado histórico daquela civilização pela região há muitos séculos.


Bath Spa


Pegamos o ônibus em direção à Bath e depois de 4 horas chegamos à cidadezinha que nos encantou, porém havia um problema, era época de formatura nas universidades e não havia um quarto disponível.


Depois de rodar muito sem sucesso decidimos ir para Chipenham, uma cidade próxima em busca de acomodação. Ao decer do ônibus andamos um pouco e já encontramos um lugar com preço razoável, deixamos nossas mochilas e fomos dar uma olhada na cidade que também era muito bacana. Naquela tarde, a chuva que até então era apenas uma ameaça apertou e a Luah começou a correr, eu disse a ela: “Luah, não estou aguentando correr!” ela disse: “Como assim?” eu não tinha forças e logo não tinha fome, ela tocou meu rosto e notou que eu estava com febre, surpreendentes 39,5. De lá para o hospital, onde me atenderam e suspeitaram que eu estava com Malária ou algo assim já que nosso destino anterior havia sido a Índia. Eles indicaram o hospital de de Bath que tinha mais recursos.


Em Chipenham, cidade onde comecei a me sentir mal…


No dia seguinte foi o que fizemos, voltamos a Bath em busca do hospital. O que não sabíamos é que eu não sairia de lá tão cedo, foram 21 dias internado. Depois de duas semanas queimando em febre, da suadeira de calor à tremedeira de frio com a sensação de corpo doído e mal estar, pelo menos 2 dias de puro delírio fui começando a melhorar. Febre Tifóide era o que eu tinha, uma doença rara hoje em dia, mas que matava muito em séculos passados.


Pra baixar a febre me davam dezenas de comprimidos de paracetamol, deixavam a janela do quarto aberta e um ventilador ligado em cima de mim 24 horas por dia num frio considerável que fazia.


8 quilos se foram rapidamente e a Luah se virou nos 30, achou um pequeno sótão em uma guest-house que foi seu quarto pelo tempo em que estive no hospital. Opções de restaurante para ela não haviam, ia quase todos os dias a um mercado próximo (o único já que o hospital ficava bem afastado do centro da cidade) para comprar saladas prontas ou sanduíches.


Comida de hospital, sempre uma delícia…


Alguns anjos participaram dessa história, Francisco um enfermeiro filipino que nos ajudava com sanduíches extras, chá e chocolate quente, um médico da família da Luah, Dr. Luis que acompanhava diariamente os prontuários “surrupiados” pela Luah e devidamente fotografados nos momentos em que estávamos sós. Meu tio Gilmar que se prontificou à ir a Inglaterra caso minha situação ficasse pior, pois também havia um risco de que a Luah tivesse contraído essa bactéria, aí não teria jeito precisaríamos de ajuda mesmo; mas graças à Deus não precisamos. Até um grande amigo do Brasil chamado Felipe Burman, que estava a caminho de Liverpool para um curso desviou sua rota e apareceu por lá só para nos dar uma força.


Eu e Felipe Burman, grande amigo! Ajuda na hora certa!


Amigos e parentes se uniram e fizeram uma vaquinha pela internet para ajudar com as despesas extras que tivemos. Foi um momento tenso da viagem, para minha família e amigos e principalmente para a Luah que não sabia mais o que fazer pra tentar me ajudar. Ficou comigo todos os dias e só voltava à noite para dormir em seu pequeno sótão.


Aqui fica minha gratidão à Luah, que esteve comigo em todos os momentos, à minha família, amigos e ao Dr. Luis.


Só por curiosidade a Luah descobriu antes dos médicos o que eu tinha e escreveu num papel pra que eles avaliassem. Ela lia sem parar os sintomas na internet e contando também com a sua intuição teve certeza antes mesmo de saírem os resultados.


Depois de sair do hospital ainda tivemos que esperar mais 5 dias e voltar para fazer um exame de fígado pois minha função hepática estava num valor absurdo, efeito dos remédios e da própria doença.


Dia a dia da Luah no hospital…


Fica a dica que o cuidado ao se viajar pela Índia é imprescindível, provavelmente peguei essa bactéria bebendo leite, o curioso é que não bebi leite a viagem inteira, mas como fazia muito calor logo pela manhã não conseguia tomar café quente e o suco vinha com cubos de gelo (outro foco de contaminações já que a água não é de qualidade). Bom, no final das contas fiz um tratamento intensivo com antibióticos e todo o período que estive no hospital foi pago pelo próprio governo inglês, o que só descobrimos no último dia na saída do hospital quando recebi uma carta com o selo do Reino estimando minhas melhoras, o que foi surpreendente.


Após sair do hospital pensamos seriamente em desistir da viagem e voltar para o Brasil, ficamos inseguros e sentimos na pele os riscos de estar fora de casa, pensamos o quanto seria difícil se a doença se manifestasse dias antes quando ainda estávamos na Índia. Foi uma difícil decisão, mas nos motivamos a continuar pois ainda não tínhamos cumprido nosso propósito. A partir daí, mudamos alguns planos, fizemos algumas revisões sobre o projeto e a viagem fluiu. Passamos a encontrar mais e mais pessoas incríveis e realizar o projeto com uma intensidade diferente.


Quando saí do quarto após 21 dias… antes disso não podia nem pisar no corredor!

Nossos corações certamente ficariam feridos se tivéssemos abandonado o barco e voltado pra casa. Nem sempre obstáculos servem para nos desviar da rota, podem servir também para fortalecer os sonhos e criar novas possibilidades.


Abraço a todos.


Danilo España

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