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ABORÍGENES E MAORIS: CONTRASTES CULTURAIS


Durante a decisão dos países que integrariam nossa rota original a Austrália foi um dos escolhidos pela cultura Aborígene, nossa idéia era descobrir como vive na atualidade esse povo de origens ancestrais.


No avião da Qantas rumo a Sydney notamos que o uniforme dos comissários tinha como estampa a arte aborígene, um bom sinal pensamos!


Ao desembarcarmos tentamos nos munir ao máximo de material turístico para abordarmos os principais pontos de interesse e pra nossa triste surpresa, não encontramos absolutamente NADA sobre os aborígenes, vasculhamos páginas e páginas de várias revistas, panfletos, mapas, guias, etc… sem sucesso.


Em Sydney os aborígenes vivem às margens da sociedade, sofrendo fortes preconceitos e discriminação, seus traços físicos são inconfundíveis. Ocupam geralmente sub-empregos e acabam vivendo de pequenas apresentacões do que restou de sua cultura, em tendas armadas nos principais pontos turísticos da cidade sopram seus “didgeridoos” emitindo um som bem exótico que mixam com música eletrônica atual produzindo uma verdadeira salada musical que recebe alguns trocos dos turistas que passam.


Conversamos com um aborígene que nos contou um pouco da situação que lhes descrevo aqui, marcou no dia seguinte para conversarmos melhor, conhecermos sua família, mas infelizmente não apareceu…


Em outras partes do país existem comunidades mais preservadas, mas com o rítmo de crescimento do país não sabemos até quando essa originalidade será mantida.


Hoje são pouco mais de 200 mil entre 20 milhões de habitantes na Austrália, foram praticamente fugidos para as regiões desérticas do país na época em que os colonizadores ingleses caçavam-nos por puro prazer e envenenavam com arsenico a água de vilas inteiras quase dizimando a raça que em 1965 era composta por apenas com 40 mil aborígenes.


Aproveitando a proximidade geográfica ao país vizinho, a Nova Zelândia, fomos incitados a desvendar um pouco sobre outra cultura indígena ancestral, a Maori . Trocamos algumas milhas e mudamos nossa rota original em busca de uma comparação entre as histórias, pois queríamos saber se lá encontraríamos o mesmo que ocorrera na Austrália.


Depois de 3 horas de voo e um pouso super tranquilo em Auckland, nos deparamos com vários aviões da empresa aérea local, a New Zealand Airlines, cujas caudas dos aviões são “tatuadas” com um símbolo maori. Ao desembarcamos passamos sob um portal todo entalhado em madeira com a arte típica dos Maoris, nesse momento nos bateu uma preocupação de que poderia ter ocorrido o mesmo que na Austrália, o país se apropriando da fama de uma cultura de raízes, da arte Maori, mas sem uma preocupação com o povo em si.


Mas felizmente o quadro foi diferente, ao caminharmos pelo aeroporto encontramos vários Maoris trabalhando normalmente, nos guichês da aduana, integrando a equipe de terra das companhias aéreas, nas lojas de passagens rostos maoris estavam misturados a sociedade.


Que alívio, que alegria presenciar a realidade de um povo que não se deixou oprimir pelo colonizador. Nos dias que se seguiram na Nova Zelândia pudemos confirmar a plena participação do povo Maori e notamos o orgulho que o país sente dessa cultura, sentimos na pele e entrevistamos várias pessoas, Maoris e não Maoris, que confirmaram nossas impressões. Afinal representam quase 20% da população.


As tatuagens que antigamente preenchiam os rostos dos Maoris indentificavam e distiguiam as tribos e quanto mais tatuagens a pessoa tivesse maior seria o poder dentro do clã. Mulheres recebiam as tatuagens ao redor da boca apenas, pois a dor para fazê-las era muito grande.


Essa arte ainda sobrevive no rosto de alguns habitantes, mas é algo raro. No corpo os desenhos ainda são comuns e mais uma evidência do apreço pela tão distinta arte se faz visível em inúmeros lugares, como livros, revistas, ônibus, logomarcas, museus, e até muitos nomes de cidades, etc.


A sobrevivência de uma cultura depende muito dos esforços feitos para mantê-la como foi o caso dos Maoris, que não abriram mão, lutaram e resistiram. Já os Aborígenes talvez não tenham tido a mesma força, obstinação ou mesmo preparação para resistir e hoje vivem uma triste realidade, que pode ser facilmente notada.


Até que ponto nos importamos com a cultura? Será que mantê-la não nos proporciona bases para que tenhamos o direito de existir?


Por Danilo España


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